
Não existe imparcialidade no jornalismo. Guarde essa frase. Volto a ela daqui a pouco.
Não gosto de criticar. Não gosto. Ponto. Prefiro elogiar, sempre que posso. Mas tive de escrever sobre essa matéria da Revista Elas & Lucros, capa da edição de dezembro: “Como agarrar um milionário”.
Quando fiquei sabendo, pelo post do Brainstorm#9, fui correndo para a banca. Comprei. Quis ler a matéria, pois me recusava a acreditar. Poxa, praticamente vi essa revista nascer (rs). Comprei as cinco primeiras edições (a foto aí embaixo eu acabei de tirar). SEMPRE gostei. Ela é editada por jornalistas mega experientes, a quem admiro e acompanho o trabalho.
Pelo título, eu temia o pior da matéria. Algo como “dez dicas para conquistar seu ricaço”, ou talvez um teste (revistas femininas adoram testes) tipo “saiba se você tem chances de casar com um herdeiro”, sei lá.
O fato de eu não encontrar o pior não ameniza o início da matéria, o qual mostra que, dos 25 maiores bilionários do mundo, só três são mulheres e TODAS são HERDEIRAS da fortuna, ou CASARAM MUITO BEM. Estarei sendo muito chata se eu interpretar isso desse jeito: “Amiga, desiste de trabalhar. Nem precisa se esforçar mais, larga de ser besta. Você só vai ficar rica se casar com um homem rico”?
No desenrolar da matéria, há uma entrevista com Ken Fisher, o autor de um livro chamado “O Mapa da Fortuna – as 10 rotas para enriquecer”. Esse cara me pareceu aqueles bem picaretas, sabe? Desses que estão cheios por aí nessa área de finanças. Que vendem promessinhas mirabolantes de enriquecimento rápido e fácil só pra vender livros e frustrar vidas.
Aí você me diz:
mas era o especialista quem dizia que casar com a conta bancária era um caminho legítimo para enriquecer!

Gente, prestenção (especialmente os não-comunicadores que não manjam muito desses melindres, voltemos a frase que iniciou esse post): as escolhas que o jornalista faz ao apresentar as falas dos entrevistados são SEMPRE subjetivas. Invariavelmente. Pode ser mais ou menos parcial. Mas neutra não, gente. Por isso, desculpe, mas se ao longo do texto eu tive a impressão clara de que casar era um ótimo negócio para enricar, é porque essa foi a forma com que a matéria foi montada. Foi o que a autora quis passar. É assim.
Minha suposição para o que aconteceu com essa reportagem: as jornalistas devem ter querido abordar um tema que é super recorrente no nosso cotidiano. Quem nunca comentou numa rodinha de mulheres “ah, ache um homem rico pra te sustentar!” ou coisa parecida?
Mas, convenhamos, uma revista de finanças para mulheres – que, digo agora se ainda não falei: é uma ótima publicação, rápida de ler, prática de carregar, com dicas super úteis e informações relevantes sobre investimentos e organização das finanças pessoais – deveria no mínimo desmistificar, ou tentar derrubar essa lenda.
Poxa, nós mulheres nos ferramos de trabalhar para tentar conquistar o mínimo que é um salário igual aos dos homens que atuam no mesmo cargo e às vezes estudaram MENOS que nós e ganham MAIS, para vir uma revista ensinar “Como agarrar um milionário”? É demais pra mim :-/
Ok, do meio da matéria para o final, ela mostra casos de sucesso, de umas empresárias que começaram do nada, sozinhas, e hoje possuem um império. E ainda dá dicas para administrar as finanças, como ser uma empreendedora de sucesso e qual o valor da poupança mensal, de acordo com alguns tipos de aplicações, que você deveria investir para alcançar o primeiro milhão em 10, 20 ou 30 anos. Dicas legais. Mas até chegar nessa parte eu já tava com raiva suficiente. E também não adiantaram muito, o estrago já estava feito.
Como eu sempre sou aquela que faz ressalvas de tudo, lá vão elas:
> continuo achando a revista legal. Recomendo para as investidoras iniciantes;
> acredito que a matéria foi um tropeço, que não deve se repetir. Há muitas revistas femininas fúteis que há por aí. A Elas & Lucros não é uma delas. Ela é útil e legal.
Pérola:
Tem uma parte do texto que diz assim: “O casamento por interesse é abminável, mas é um caminho legítimo. Não é o golpe do baú e sim, para alguns, uma estratégia para ser feliz. Em geral, casar-se nem sempre dá certo. Divórcio cresce em toda parte e não há prova nenhuma de que o índice de divórcio entre os que se casam com a riqueza seja maior que os demais casamentos”.
Meu, na boa, como jornalista, não dá para ouvir um especialista dizendo um negócio desse e não perceber a picaretagem. Será que não se percebeu ou concordou-se com a “teoria”?
Mais uma coisinha:
Alô você que jogou no Google “Como arranjar marido rico” e caiu nesse post, más notícias: a reportagem acaba não dando dicas sobre como conseguir um. Volte ao Google e tente novamente. Boa sorte.
Ou seja, felizmente ou não, o texto não dá o que promete. Se isso foi estratégia para atrair mais a atenção do público, eu não sei. Mas, jornalisticamente, não gosto disso. Título tem de ser o mais chamativo possível, sim, mas desde que ofereça realmente o que a reportagem tem para dar. Senão, é desonestidade com o leitor. (Só faço títulos assim se meu chefe me obrigar, aí não tem jeito #prontofalei)



Meu, muito bom esse post. Mandou bem mesmo. Mais do que Economia, você abordou sobre Jornalismo e Sociedade. Fantástico!